Com a BR-101 cheia de obras, o ônibus de Sid demorava mais que o previsto para fazer o trajeto entre Porto Alegre e Criciúma. E isso era irritante, muito irritante. Tão irritantemente irritante que Sid acabou dispersando sua atenção do mundo exterior e ouvia apenas as batidas do próprio coração. Estas, ritmadas, o deixavam ainda mais nervoso.
“Dado o lugar em que estamos, chegaremos na rodoviária com vinte minutos de atraso! Vinte minutos da minha vida perdidos”, resmungou para o assento vazio ao lado. Os demais passageiros olhavam o colega de viagem com desdém, estranhamento ou vontade de ir ao banheiro. A coisa piorou quando o fluxo de veículos foi interrompido por um acidente perto de Araranguá. Os vinte minutos acabaram virando cinquenta e três.
Com cinquenta e dois minutos de atraso, chega. Desce. Tira a mala. Pega o celular. Olha a lista da agenda. Lembra de todos os compromissos da semana que se inicia. Do chefe, maldito chefe, que trata Sid como um autômato. Logo ele, cheio de ideias para a empresa – enquanto o chefe só pensa no resgate financeiro de cada mês e era isso. Sid passa pelos nomes e vai lembrando do resto. Contas a pagar. Conselho de classe na escola dos filhos. O compromisso semanal da igreja, exigência da esposa. Ah, a própria esposa em si. Se ele bem a conhece, sabe que ela estará com um imenso interrogatório desconfiado sobre a estadia na capital gaúcha. “Como deixei as coisas chegarem a este ponto?”, ele questiona a si próprio. Não era pergunta para se responder imediatamente.
Guardou o celular. Estava diante dos guichês.
“Bom Jardim da Serra”. Foi o primeiro destino que lhe veio em mente. A condução partiu em cinco minutos, e lá foi ele, mandando uma banana para sua vidinha irrelevante. Ônibus subindo o lindo costão da serra e ele nem aí: estava mais ocupado com seus relógios. Ele tinha dois. O tempo todo em que esteve no veículo foi gasto com a tentativa de sincronizar os aparelhos. Na primeira olhada através da janela, Sid percebeu que estava perto do mirante. “É um lugar bonito”, lembrou da natureza depois de perder tempo com o tempo na bela subida.
Pediu para descer. Enquanto o ônibus partia rumo a seu destino final, Sid tirava um casaco da mochila. A temperatura despencou para cinco graus. Frio. Apesar deste, o mirante estava cheio de pessoas. Famílias com crianças gritando e idosos que exclamavam o tempo todo acerca da beleza do local através de seus sotaques paulistas.
Não era o que Sid queria, e ele tratou logo de partir dali. O ônibus nunca aparecia, o vento estava cada vez mais forte e ele tratou de procurar um abrigo. No entanto, não sentiu mais vontade de parar depois de começar a caminhar. Virou à direita numa estradinha de chão batido terrivelmente conservada e desandou a andar. Quilômetros adiante, ele percebeu que perdera a noção do tempo pela primeira vez em anos. No mínimo, a primeira vez desde a formatura da faculdade.
O sol estava para se por entre dois morros totalmente nus, sem árvores, ostentando apenas a penugem que era o pasto. No outro lado, o imenso penhasco, que permite a vista do distante mar. Sid sabia que não haveria possibilidade de volta durante a noite. Ficaria muito escuro, e a região era totalmente desconhecida para ele. O celular estava sem sinal e, pior, com a bateria acabando num lugar ermo sem uma tomada sequer.
Sid não fumava, mas, por sorte, havia um isqueiro em sua mochila. Ganhou num restaurante portoalegrense. Juntou uma quantidade razoável de gravetos e produziu a fogueira que deixaria o frio daquela noite menos cortante. Acendeu a fogueira, deitou-se, e ficou a olhar as estrelas daquela noite sem lua.
O solitário andarilho notou que perdera outra vez a noção do tempo, quando percebeu que os corpos celestes haviam se movimentado bastante pelo céu. Para ele, as horas em que ficou deitado não foram mais que um mero instante. Logo depois, adormeceu.
Acordou quase congelado. Sid tomou cuidado para se cobrir com todas as roupas possíveis, mas, durante a noite, os cobertores improvisados acabaram virando uma maçaroca que pouco protegia do frio. Literalmente correu para se aquecer, tanto com a corrida quanto com a busca por mais gravetos. Restituída uma sensação mais confortável, Sid resolveu lagartear ao sol que batia na beira do penhasco.
Ele chegou bem na pontinha. Olhou para baixo. Era muito alto. Se ele caísse, ou então se atirasse por vontade própria, certamente viraria uma pasta ao chegar lá no fundo. Sid começou a pensar na morte, e anteviu a sensação libertadora que sentiria durante a queda. Nada mais com o que se preocupar, definitivamente. Nem mesmo haveria o peso da reprovação da sociedade durante o fim: dado como desaparecido para sempre, nunca o criticariam pela queda voluntária.
“Tentador, não?”
Sid deu um pulo para trás. A voz vinha de uma pequena mesa separada do resto do planalto serrano pelo precipício.
“A decisão está nas tuas mãos. Ou melhor, nos teus pés”, desafiou a voz.
O andarilho esfregou os olhos com as mãos e custou a acreditar nos sinais que seu nervo óptico enviava ao cérebro. Era ele mesmo. Ou melhor. Não era ele mesmo, era uma cópia, um clone, um irmão gêmeo?
“Quem és tu?”, perguntou Sid, atônito. Tão atônito que conjugou o verbo corretamente.
“Não te interessa quando teu desejo é pular”, ironizou Sid 2.
“Não quero pular”, respondeu um levemente irritado Sid.
A estranha entidade começou a provocar o andarilho, que ia chegando mais perto do precipício, como se fosse possível deixar seu “lado escuro” surdo gritando mais alto e mais perto da mesa. Até que Sid escorregou.
“Eu sabia que tu acabaria pulando”, falou um risonho Sid 2 a seu original, que estava pendurado, a ponto de cair quase um quilômetro abaixo.
“Não quero morrer agora! Me tira daqui”, gritou desesperado o semi-suicida involuntário.
“Não tenho como sair daqui, há esse penhasco entre nós”, respondeu o lado escuro, apenas observando.
Sid apoiou o pé no paredão. Todas as suas esperanças estavam na vegetação. Caso as raízes não fossem fortes o suficiente, lá iria ele para o beleléu.
Dois minutos se passaram e Sid, com seus vegetais aliados, conseguiu vencer o paredão. Pisando na terra firme, percebeu que tinha perdido a carteira, provavelmente durante a quase-queda. Ficou irritadíssimo com seu outro eu, que, em seu ponto de vista, provocou tudo aquilo.
“Dinheiro…Vale alguma coisa aqui?”, questionou Sid 2.
O andarilho deu um giro de 360 graus e concordou com o lado escuro. Mas…”Aqui pode não valer, mas vai ser uma dor de cabeça refazer todos os documentos quando eu voltar para a civilização, fora a grana perdida!”, resmungou.
“E quem disse que tu vai voltar?”, provocou o habitante da mesa.
“Eu quero.”
“Quer a tua vidinha de merda de volta?”, desafiou o lado escuro.
Sid ficou sem resposta.
“Nós não precisamos deles”, disse Sid 2.
“Tenho mulher e filhos.”
“Tua família te faz feliz? Tua esposa é uma bruxa, um dos teus filhos já cometeu pequenos furtos e o outro está seguindo o mesmo caminho, roubando coisas da própria casa.”
Sid 2 parecia extremamente cruel, mas…
“Talvez o problema seja eu”, refletiu Sid.
“Tu sempre foi um marido a pai carinhoso, nunca forçou tua família a nada. Nunca foi um pai ausente.”
“E o que tu quer que eu faça?”, exasperou-se o andarilho.
“Segue a tua vontade”, disse o lado escuro com os olhos firmes.
“Mas…E eles?”
“Esqueça ‘eles’. Pense em ‘nós’”, desafiou Sid 2.
Sid coçou a pequena superfície calva que começava a surgir entre os cabelos castanhos. Seus olhos, da mesma cor, alternavam expressões de surpresa e desespero.
“Chega a ser um choque quando temos total poder de escolha em nossas vidas”, falou o lado escuro, com uma leve expressão de ternura.
Sid não queria mais conversar. O sol estava cada vez mais baixo, e o andarilho pernoitaria novamente nos campos de cima da serra. Fez outra fogueira e ficou observando as estrelas até cair no sono, sem ter ideia do horário em que dormiu.
O dia seguinte surgiu um pouco mais quente que os anteriores, era uma temperatura absolutamente agradável, mas alta para os padrões daquele lugar naquela época do ano. Sid acordou e imediatamente olhou para o penhasco. Sid 2 havia sumido. O andarilho estava sozinho novamente, mas agora não sentia falta de qualquer coisa que deixou para trás. Tendo certeza disso, se colocou a correr, pular e gritar – agora só precisava do necessário para sobreviver!
No momento em que Sid comemorava sua liberdade, dois cavaleiros passavam no alto de um morro. Viram a cena e continuaram seu caminho. “Louco”, disse um deles. “Capaz de estar armado, deixa ele.”
O Andarilho juntou suas coisas e tomou o caiminho da estrada, seguindo para o norte na beira do penhasco. Conseguiu uma carona com um caminhoneiro quando caía a tarde. Nunca mais teve notícia de qualquer pessoa que representasse sua antiga vida. Toda vez que parava na estrada para pedir carona, podia ouvir as batidas do próprio coração. A sinfonia que o órgão criava em conjunto com o vento dava o ânimo que Sid precisava para seguir viagem.