Sobre o diploma de jornalista

By Arthur

Estava me guardando para escrever sobre o tema somente após o STF finalizar a novela, mas acabei me deparando com um texto demolidor do Tiago Jucá acerca da (falta de) necessidade do diploma. Detalhe que ele não se considera “apropriado para debater o diploma”, mas põe à mesa argumentos bem difíceis de refutar sobre o assunto.

Vale entrar no link e ler toda a argumentação, mas transcrevo aqui alguns pontos fortes do texto:

Leis que não consideramos justas, nós não obedecemos. Isto se deve ao nosso maior inspirador que é Henry Thoreau, autor do clássico A Desobediência Civil. Diz ele, em certo trecho do livro:

“Deve o cidadão, sequer por um momento, ou minimamente, renunciar à sua consciência em favor do legislador? Então por que todo homem tem uma consciência? Penso que devemos ser homens, em primeiro lugar, e depois súditos. Não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito.”

Conclui o mestre: “A lei jamais tornou os homens mais justos, e, por meio de seu respeito por ela, mesmo os mais bem-intencionados transformam-se diariamente em agentes da injustiça.”

De fato, leis não necessariamente moldam a sociedade. E, quando essas leis são estúpidas, a sociedade passa por cima delas como um rolo compressor – vide o embate entre a legislação de copyright e a pirataria virtual.

Não me venham com esse papo furado que é preciso diploma pra segurar um microfone, alisar o cabelo e dizer que hoje vai chover na fronteira e fazer frio na serra. O cara que tinha mais talento pra fazer isso não tinha diploma de jornalista, e hoje é deputado estadual. Era muito mais divertido ele do que essas menininhas formadas na Fabico ou Famecos de cabelo alisado. Qualquer Maísa dá a previsão do tempo.

Segurar microfone se aprende na frente do espelho. Locução de rádio com um gravador. Escrever, se tu não tiver habilidade nata, é possível estudando português e lendo muito. Fotografia se aprende na prática, fotografando. As técnicas básicas de apuração são passíveis de absorção numa tarde de trabalho. As básicas. O resto vai de cada indivíduo. Pra ser um grande repórter investigativo como o Caco Barcelos, não adianta um diploma da Famecos igual ao dele – se assim fosse, a PUC-RS teria formado milhares de Cacos Barcelos.

Atualmente, eu trabalho como repórter fotográfico. Saí da faculdade sabendo o básico em como fazer fotos jornalísticas. Acerca de fotografia, aprendi mais em um mês e meio que nos seis anos de Fabico. Praticando, ouvindo conselhos dos colegas mais experientes e pesquisando bastante na internet e até mesmo nos manuais de instruções dos equipamentos

Duas meninas comentaram, uma no nosso blog, e outra no twitter: então me devolva o dinheiro que gastei na faculdade. Não pude deixar de responder: se tivesse estudado como eu estudei, tinha passado numa federal. Porra, a preocupação delas é somente dinheiro. Em nenhum momento parou pra pensar que elas, com diploma, tem uma qualificação a mais de quem não tem.

Não é exigido, pra ser jornalista, estudar inglês, francês e castelhano, fazer mestrado e doutorado, tirar um curso de fotografia no SENAC, freqüentar algumas aulas na história, cursar photoshop, ler livros sobre a profissão que os professores nunca exigiram ou jamais recomendaram. Vou eu pedir a livraria meu dinheiro de volta porque a lei não obriga ler Darcy Ribeiro pra exercer a profissão de jornalismo? Claro que não. Eu procurei me qualificar. Por isso que entrei numa faculdade. Foi lá que conheci, além do Darcy Ribeiro, o Eric Hobsbawm e o Marshal McLuhan.

Esse é, ao meu ver, o melhor trecho do post. Sintetiza bem e faz chacota da mentalidade “linha direta faculdade-diploma-mercado”.

Um professor que eu tive na Fabico quando era calouro usou sua primeira aula para explicar a essência da faculdade, da universidade, da Academia. Muitos dos meus colegas ficaram furiosos. O que ele disse? Não lembro das palavras exatas – lá se vão sete anos – mas, basicamente, ele anunciou que a universidade é o local do conhecimento.

Como assim? Técnicas de telejornalismo são ou não conhecimento? Não no sentido que ele quis dizer – são um conhecimento técnico. Para este aprendizado de forma estrita servem os cursos técnicos que formam apertadores de botão (não estou desprezando os apertadores de botão, sem eles eu não teria um computador pra publicar este texto). A universidade é o local onde o sujeito entra em contato com o conhecimento mais abstrato, com os autores que o Jucá citou, com o maravilhoso mundo do pensamento.

Posso estar fazendo um julgamento extremamente ácido e, talvez, precipitado, mas farei: meus ex-coleguinhas ficaram irritados porque eles não queriam estar ali para pensar. Eles queriam estar ali pra pegar um pedaço de papel assinado pelo reitor da UFRGS. Esse pedaço de papel (o meu tá guardado no armário ao meu lado) permitiria a mim e a meus coleguinhas segurar microfones, fazer fotos, escrever textos achando que não se está expressando subjetividade. Basicamente, conhecimento técnico. Ué, mas precisa de diploma pra fazer isso? A lei atual diz que o tal pedaço de papel é uma necessidade se tu quer fazer essas coisas seguindo ordens de algum grande empresário brasileiro inescrupuloso pra ganhar alguns trocados.

Em resumo: há pessoas que veem a faculdade de jornalismo como uma escada para ganhar alguns trocados (uma escolha boba, Direito é bem melhor nesse aspecto…). “Ah, mas eu fiz porque eu gosto de jornalismo e precisava do diploma pra trabalhar”. Desculpe, mas, se tu pensa assim, tu não gosta de jornalismo – tu olha a profissão como mais um emprego. Se tu gosta de jornalismo, a faculdade é o teu lugar, pelo menos pelo tempo da graduação – porque é lá que se debate a atividade cotidianamente em alto nível (em tese) e se tem a possibilidade de exercer o jornalismo de forma pura com relativo apoio de alguma instituição (embora muitos não aproveitem isso). Se tu gosta de jornalismo, vai continuar envolvido de alguma forma com o tipo de atividade que se tinha na faculdade depois que sair dela, nem que seja a leitura de livros-reportagem ou de blogs sobre o assunto.

Nenhum problema com o fato das pessoas verem o jornalismo como mais um emprego. Vendo o que se passa na grande imprensa – onde muitas vezes é quase impossível praticar jornalismo – é realmente difícil muitos não verem de outra forma. As pessoas precisam ganhar dinheiro de algum jeito para sobreviver. Mas não é massacrante passar anos na faculdade só pra trabalhar em mais um emprego?

O presidente da Fenaj ilustrou um caso pra defender a obrigatoriedade do diploma. Um cara que pediu carteira de jornalista, mas que era analfabeto. Eu pergunto: você tem medo de concorrer e perder emprego pra um cara analfabeto? Então vaza, meu filho, enquanto é tempo. Desista do jornalismo e vá fazer outra coisa, vá plantar batatas.

Bem…Aqui eu nem tenho o que adicionar. Perfeito.

E livros como “Estação Carandiru”, do Drauzio Varela; “Noites Tropicais” e “Tim Maia – Vale Tudo”, do Nelson Motta; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, de John Reed; “A Sangue Frio”, de Truman Capote; “O Mistério do Samba” e “Mundo Funk Carioca”, de Hermano Vianna. Todos esses livros, entre tantos, não são jornalismo? Preciso de diploma pra escrever um livro reportagem?

E filmes? “Ônibus 174”, do José Padilha; “Notícias de uma Guerra Particular”, do João Moreira Salles. Estes filmes não são jornalismo? Se forem, preciso ter diploma pra fazer um documentário?

Como o próprio Jucá disse em outro trecho do post, parece que defendem o diploma só pra trabalhar na grande imprensa. O engraçado disso é que os patrões da grande imprensa – supostos beneficiados com funcionários supostamente qualificados – são contra o diploma.

E quanto a esses caras que vou citar. MINO CARTA – Quatro Rodas, Carta Capital, Veja; ANDRÉ FORASTIERI – Bizz, Set, General, Conrad, Folha, MTV; ZIRALDO – O Pasquim, Bundas, Palavra; MARCOS FAERMAN – Versus, Singular e Plural; SEBASTIÃO OLIVEIRA – Caac – centro de artes e alternativas de cidadania; ELIEZER MUNIZ – projeto canal motoboy; LOBÃO – Outra Coisa, MTV; IDELBER AVELAR – brilhante cobertura dos ataques israelenses à Palestina; REGINA CASÉ – Central da Periferia; HERMANO VIANNA – Música do Brasil, Overmundo e Central da Periferia; ARNALDO JABOR – Jornal da Globo; RONALDO LEMOS – Overmundo. Em comum entre todos estes nomes é que nenhum deles tem diploma. Vamos queimar a Carta Capital? Vamos tirar o Overmundo do ar?

Bem…Começo dizendo que Mino Carta é jornalista mais completo do Brasil, e creio que posso encerrar por aqui mesmo.

Também dizem que assim que não for mais exigido o diploma, as empresas vão demitir os jornalistas formados. Alguém aqui acredita que a Globo vai demitir o Caco Barcelos ou o Carlos Eduardo Dornelles? (…) Só os medíocres acreditam nisso, pois só eles tem medo de perder emprego, porque sabem que são medíocres.

É um argumento cruel, mas não vejo como refuta-lo.

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Enfim…O diploma de graduação em jornalismo, que deveria ser uma qualificação (como língua estrangeira, pós e conhecimentos gerais), foi transformado há quatro décadas em uma obrigação. Criou-se uma reserva de mercado para quem tem diploma. Reservas – especialmente as “eternas”, acabam nivelando por baixo o mercado – temos um exemplo na área de informática, onde a regulação atrasou em anos o desenvolvimento de parte do ramo no Brasil. (Menos in)Felizmente, era uma reserva temporária. Diploma não é garantia de nada, dada a profusão de UniEsquinas que só têm o diploma a oferecer. Exemplos de baixo nível temos aos montes. Se não é garantia, por que a obrigação?

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7 Respostas para “Sobre o diploma de jornalista”

  1. Tiago Jucá Disse:

    fico feliz de ver minhas idéias se expandido. belo post, não só por concordar comigo, mas por saber ilustra-lo e argumentar em cima. grande abrazo

  2. Rose Disse:

    É um ponto. Como eu te disse, vou continuar “por amor”. Mas ainda acho que de certa forma “diminuíram” a profissão. Claro que agora vou pensar considerando as coisas que tu mostrou, é coisa pra se discutir mesmo…

    Beijo

  3. Quaresma Disse:

    só não assino em baixo pois discordo do “Não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito” do Toureou, pois esse argumento serve pra justificar totalitarismos, ditaduras religiões etc…

    Com relação a vida acadêmica fico com o schopenhauer, creio que mais do que um lugar de conhecimento, a academia muitas vezes é um lugar de disputas de ego e de limitação do conhecimento.

  4. Arthur Disse:

    Quaresma, esse mesmo argumento serve pra derrubar as ditaduras…O problema não tá na ideia em si, mas no seu emprego.

    Se fosse assim, deveríamos banir toda a tecnologia, já que o mau uso dela oprime o cidadão…

    Sobre a vida acadêmica: sim, tem muita guerrinha de ego na universidade. Mas o aluno pode neutralizar os efeitos negativos dessas briguinhas adotando determinado tipo de postura. Falo isso como integrante de uma turma de Teoria da Comunicação prejudicada por guerrinhas de ego entre professores.

    A minha postura (passiva, como a de muitos colegas) acabou criando um vácuo na minha formação em teoria da comunicação, que só foi preenchido depois que eu corri atrás do prejuízo.

    Não sei se isso é possível no Direito, mas, se for, aproveite o conhecimento disponível na universidade e deixe os acadêmicos ególatras afundarem juntos na lama…

  5. Bode Morto Disse:

    [...] Bode Morto Espasmos mentais periódicos « Sobre o diploma de jornalista [...]

  6. “Foda-se o diploma” « Bode Morto Disse:

    [...] Bode Morto Espasmos mentais periódicos « Sobre o diploma de jornalista [...]

  7. Quaresma Disse:

    “Não é desejável cultivar pela lei o mesmo respeito que cultivamos pelo direito” direito e justiça são conceitos balaio de gatos. é comum que os juramentos no estilo “defenderemos o direito, mas lutaremos até a morte pela justiça”
    Direito, Justiça são conceitos metafísicos, são uma idealização que já varia muito de pessoa pra pessoa e ainda mais de sociedade pra sociedade.
    p ex. a noção de “direito” ou de “justiça” tem um aspecto tão amplo que vai desde absolver um estuprador condenado com o auxílio de provas ilegais até apedrejar até a morte uma mulher que se deixou ser estuprada pois mostrou o tornozelo.

    Um exemplo do quão nefasto esse tipo “bandeira” excessivamente vaga pode se tornar é o irã. com a bandeira de expulsar os americanos, quase toda a sociedade no irã do final da década de 70 se uniu, mas com o conceito aberto de “soberania nacional” justiça” etc.. que ficou no poder foram os aiatolás que são muito piores que os americanos.

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