Estudantes de jornalismo: Estudem para aprender e não para ter prisão especial. Foda-se o diploma.
Rafinha Bastos, no Twitter. Sintetizou de forma fulminante o que eu quis dizer no post anterior.
Já passaram cinco dias da decisão do STF (o leitor saberá o motivo do negrito mais adiante). Nesse tempo, eu li e ouvi manifestações que acabaram corroborando o que eu argumentei neste blog um dia antes do fim definitivo da obrigatoriedade do diploma. Detalhe: essas manifestações vinham de gente contrariada pela turminha do Gilmar Mendes. Espero sinceramente que tenham sido resultado do calor do momento, pois algumas pareciam ter sido proferidas por personagens de Campos de Carvalho, tamanho o surrealismo.
Quem caiu no papo furado da Fenaj (“diploma é qualidade”) parece ter sido tomado inicialmente por uma sensação de pânico. O dramalhão foi quase palpável na internet. Mas eu comecei a me segurar na cadeira quando ouvi gente cogitando seriamente processar a universidade em que estudou.
Tá, eu sei que é uma situação de choque. Até eu, que falei o que falei no post anterior, fiquei com o ego um pouco ferido com a decisão do Supremo. No entanto, a racionalidade é um dever do jornalista.
Processar a coitada da universidade por quê? “Para reaver o investimento feito nas mensalidades”. Peraí. A instituição foi contratada para prestar um serviço: o fornecimento de formação acadêmica que te permite ser graduado em Jornalismo. Não é isso? Não? Só se tu segue a mentalidade “linha direta faculdade-diploma-mercado”, descrita no post do dia 16. O trato só não era esse se tu usou a faculdade como um trampolim para conseguir o registro profissional. Nesse caso, é bom avisar a instituição antes, pois eles estão teoricamente preparados para te fornecer formação em jornalismo. Quem, após séria reflexão, cogitou processar a instituição de ensino onde se graduou acabou assinando atestado de que não aprendeu nada na faculdade. Para que o diploma, então? Aliás, numa situação de ganho de causa, o diploma seria anulado?
Quer processar a universidade? Bem, é tua a liberdade para isso, suponho. Mas, caso tu vire motivo de chacota, não diga que eu não avisei.
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Outro fato que me deixou estupefato foi a movimentação da categoria para protestar contra a decisão do Supremo. Tipo, ninguém percebeu que tinha alguma coisa errada? O Supremo é a mais alta corte deste país, não cabe mais recurso contra essa decisão. Os prostestos são inúteis, a hora já passou. Disto, pode-se depreender que:
- Os jornalistas (inclusive a Fenaj) perderam o timing para fazer protestos e pressão política. Por incompetência (atraso, tomaram um furo deles mesmos) e/ou por acomodação (juram que só deu tempo para pensar em protesto depois do dia 17?)…
- Em ambos os casos, isso demontstrou que a categoria merece estar neste fundo de poço. Que o diga o piso salarial ridículo. A não ser que se confirme que os contrários à obrigatoriedade do diploma sejam maioria (improvável). Mas, mesmo assim, o piso continua ridículo. Nunca vi a Fenaj se mexer em prol de um ganho salarial real para a categoria.
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Antes de prosseguir, quero deixar claro que não vou tecer uma ode ao Gilmar Mendes e sua trupe. Tenho sérias reservas em relação ao ministro-mor, pessoalmente não gosto dele. Aliás, os votos me causaram um grande anticlímax. O grosso da argumentação em que os ministros se basearam para anular a obrigatoriedade é tosca. Trago aqui um trecho de um texto do Träsel sobre o assunto:
(…) a lógica da decisão tomada pelo STF é falaciosa.
Em primeiro lugar, o argumento central (…) foi a incompatibilidade entre o Decreto-Lei 972/1969 e a garantia do direito à liberdade de expressão instituída pela Constituição de 1988. No entanto, a confusão entre jornalismo e liberdade de expressão só se produz para quem ignora completamente o que é o jornalismo.
Uma notícia não é um meio de expressão de idéias de quem a produz. Muito pelo contrário. Ao chegar numa redação, Joãozinho descobrirá que não apenas ele não pode expressar seu ponto de vista nas notícias, como muitas vezes terá de expressar pontos de vista exatamente opostos aos seus. Isso porque a notícia é o produto final de um longo processo de tomada de decisão sobre quais acontecimentos relatar, que começa na chefia de redação, passando pelo conselho editorial do jornal, pelos editores e subeditores de cada seção, chegando finalmente ao repórter, que então sai às ruas ou pega o telefone para apurar a notícia. Isso significa entrar em contato com pessoas que presenciaram o acontecimento ou conhecem o assunto em questão.
A partir do que essas fontes disserem e seguindo a orientação passada por toda cadeia hierárquica da empresa, Joãozinho escreverá sua notícia. Nesse momento, até poderia contrabandear suas opiniões para o texto final. Se fizesse isso, entretanto, Joãozinho logo se veria vítima do desprezo dos colegas e de críticas da chefia, preocupados com sua falta de objetividade. Se insistisse, seria demitido.
Claro que a descrição dele é sobre uma situação ideal que nem sempre acontece – e a obrigação do diploma nunca corrigiu desvios relativos a essa situação ideal. Mas os ministros, ao usar o argumento da liberdade de expressão, confundiram jornalismo com opinião. Jornalismo é “fidelidade canina à verdade factual; o exercício desabrido e constante do espírito crítico; e, importantíssimo, a fiscalização do poder, onde quer que ele se manifeste”, diria Mino Carta. É uma técnica, onde o profissional deve relatar o acontecido com a maior precisão possível, sempre tomando cuidado para não atuar como um inocente útil…
Segue Träsel:
Em segundo lugar, é mentira que a exigência de diploma impedisse qualquer cidadão de expressar seu ponto de vista. Apesar de a notícia não ser um meio de expressão de idéias particulares, sempre houve espaços reservados para Joãozinho dizer o que bem entendesse nos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão: as páginas reservadas a artigos de opinião, as cartas abertas, seções de cartas e talk-shows. Ninguém precisava ser bacharel em jornalismo para escrever ou falar nesses espaços. O que sempre houve é uma separação entre notícia e opinião.
A falácia do bloqueio à liberdade de expressão é ainda mais gritante quando se leva em conta o ambiente comunicacional da última década. É difícil compreender esse argumento quando qualquer cidadão com acesso à Internet pode usar os incontáveis canais de publicação de textos, sons e imagens conhecidos como mídias sociais. É incompreensível e irônico, pois, se alguém tem tentado controlar a expressão através da Internet, é o próprio Estado, por meio da Lei Tarso e da Lei Azeredo. Se a exigência de diploma para ser jornalista é um empecilho à liberdade de expressão, esses dois projetos de lei também o são (…)
Esse trecho do texto demonstra explicitamente como os ministros foram toscos ao chamar o argumento da liberdade de expressão. Só que, antes disso, a Fenaj não saiu da ladainha da “garantia de qualidade”. Ficou girando atrás do próprio rabo com um argumento que não refutava nada e desperdiçou tempo que poderia ser usado para destruir definitivamente o argumento da “liberdade de expressão” antes do julgamento. Demonstrou ser o que realmente é: um sindicato esvaziado e inoperante.
Entretanto, existe um ponto defensável na decisão do STF, ressaltado nos comentários: “existe um outro direito que o tribunal entendeu violado, que é o direito ao trabalho. Os ministros entenderam que não cabe à lei fazer exigências descabidas para o exercício de uma profissão, e que não há necessidade imperiosa de um curso universitário para exercer o jornalismo”. Aí voltamos ao ponto da real necessidade do diploma universitário, e se os diplomados, digamos, faziam por mercer a obrigatoriedade do título de bacharel para exercer a profissão.
O Carlos Castilho, por exemplo, acha que a discussão sobre o diploma mascarou o debate mais importante. E eu concordo com ele:
Agora vem a grande pergunta: As escolas de jornalismo no país dão aos seus alunos a capacitação necessária para ingressar num mercado de trabalho caracterizado por transformações radicais na área da comunicação e do processamento da informação?
Com raras exceções, a resposta será não. A maioria das escolas de jornalismo no país ainda não completou a sua transição da comunicação analógica para a digital. Ainda lidam com práticas superadas, sem levar em conta todas as mudanças ocorridas pela ampliação do uso da internet, pela desvalorização do produto notícia por causa da avalancha informativa, pela emergência do cidadão como produtor de informações, pelo surgimento de redes informativas baseadas na colaboração entre usuários, pela convergência de canais de comunicação e pelo desafio da multimídia como plataforma para a imersão informativa.
E o problema não está apenas na área das mídias digitais (foco do texto do Castilho). É geral. A tão argumentada formação ética aparentemente não serve para nada em casos como o da Escola-Base, que já é um tanto batido como exemplo. Vou mencionar uma situação mais irônica, que tem a ver com falta de bagagem cultural – outra qualificação importantíssima para um jornalista.
Na última semana, vi um telejornal noticiar que “jornalistas protestaram contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça“. Sério, foi muita vergonha alheia. A fala estava num off gravado, não se tratou de erro de teleprompter. A voz era de uma pessoa formada em Jornalismo. Caso alguém não saiba a diferença entre Supremo Tribunal Federal (STF) e Superior Tribunal de Justiça (STJ)… PORRA, PROCURA NO GOOGLE! (olha o argumento do Castilho novamente dando um “oi”…)
Como vocês querem que eu use o argumento da qualidade (by Fenaj) depois disso? Eu preciso explicar o porquê disso ser vergonhoso? Uma falha logo no assunto onde estavam todos putos da cara… De onde tiraram o pobre STJ, que nada tinha a ver com a polêmica? Preciso ir mais adiante na explicação? Preciso citar outros exemplos? O diploma realmente valeu alguma coisa?
Tags: diploma, Jornalismo
Segunda-feira, 22 Junho, 2009 às 11:27 pm |
Entendo esse teu ponto, e todas essas discussões. Espero que tenha entendido o meu. Mas será que, se com formação, há essas “vergonhas”, sem essas exigências a profissão não pode ser ainda mais avacalhada? Acho que só quando esses novos profissionais entrarem no mercado é que vamos saber. Esperemos.
Outro ponto, eu tenho uma amiga jornalista que está sofrendo reprimendas no ambiente de trabalho desde a votação. Me parece que os patrões, depois dessa decisão, estão se aproveitando da máxima “não quer, tem quem queira” e enviando circulares restringindo as conveniências que antes os jornalistas de tal empresa tinham (até o estacionamento foi proibido). Essa é outra preocupação, foi o que eu falei sobre a prostituição do mercado. Claro que vai ter quem se aproveite da grande oferta de serviços para baixar os salários e por aí vai.
Adoro vc!
Beijo
Segunda-feira, 22 Junho, 2009 às 11:37 pm |
Rose, as entidades patronais já emitiram comunicados anunciando que vão continuar contratando gente formada. Não vejo razão para pânico, ainda mais no caso de quem é competente.
Sobre o caso da tua amiga, eu aconselho fortemente a pular fora desse barco assim que possível e arrumar outro melhor, porque, ao meu ver, ele tá furado e com as velas rasgadas ;)
Segunda-feira, 3 Agosto, 2009 às 11:25 pm |
E porque não processar a Universidade que deu o diploma a tais juizes? Serão os juizes advogados falhados? Serão Deuses? Segundo dizem só houve um. E esse foi sacrificado. Os outros só fazem o milagre da multiplicação. A multiplicação das INJUSTIÇAS. e NUNCA INFELIZMENTE SERÃO SACRIFICADOS. Adeuzinho……