O retrospectivo aleatório

Domingo, 22 Março, 2009 por Arthur

Olá, meu nome é Idi Amin Dada e sou um personagem ficcional. Minha relação com o falecido ditador de Uganda é nula, exceto pelo fato de que meus ficcionais pais o adoravam. Conto aqui traços de minha conturbada história que eu considero relevantes, o que não significa que você necessariamente concorde com minha opinião. Apesar do meu nome, sou fã de tipos como os iluministas e não ficarei fulo, triste, bravo ou com vontade de matar ALGUÉM por conta de uma mera discordância cretina.

Minhas revelações se darão da forma que eu achar melhor, já aviso que estou pouco me lixando para critérios como ordem cronológica, isenção, objetividade, imparcialidade e outras ilusões que inventaram para vender jornal. O primeiro tópico dá uma ideia do meu senso de humor, o que pode poupar seu tempo caso você não goste do que tenho a falar.

I. Política

Sempre tive vontade de mudar o mundo, seja acabando com a fome dos oprimidos, matando o papa ou simplesmente alterando a disposição dos objetos no meu quarto. Em determinada idade, surgiu a oportunidade de me candidatar a um cargo público com grandes chances de ganhar. As circunstâncias disso são irrelevantes, o que interessa é o posterior.

Chegando na casa legislativa, totalmente pilhado com a possibilidade de mudar a ordem das coisas e o status quo, deparei-me com o primeiro obstáculo. Não entendia porra nenhuma de legislação. Mal tinha ideia das leis que deveria mudar e muito menos como proceder para escrever um texto elaborado de forma a não criar vácuos para advogados nem duplo sentido. Sim, eu era assessorado, mas foi constrangedor quando me questionaram sobre a reprodução de conteúdo em mídias digitais e não soube responder. Depois do mico em praça pública – ó, o nobre e excelentíssimo deputado é um filho da puta que não sabe o que está fazendo ali – questionei meus assessores sobre o tema. Eles disseram que estudariam o assunto, pois internet era algo que inexistia no tempo de suas vidas acadêmicas e eles já tinham seus carguinhos mamadores quando o lance que me constrangeu estourou no mundo.

Tomado por boa vontade, pesquisei o assunto a tempo de entende-lo corretamente antes de uma votação. Mas logo percebi que era um alienígena: nenhum dos meus colegas sabia porra nenhuma sobre o que se discutia no plenário. Nos bastidores, só se falava em acertos para o partido votar sim ou não, possibilidade de distribuição de verbas e cargos de acordo com o interesse do Executivo, coisa e tal. Eis que apareceram homens de ternos pretos e mui bem cortados, com malas igualmente pretas e bem cortadas, nenhuma delas com rodinhas. Papearam muito, muito mesmo, com os líderes das bancadas. A maioria acatou os argumentos dos homens de preto e orientou os correligionários a votar de acordo com sua orientação. Tentei argumentar, fui na tribuna, expus os argumentos mais lógicos do mundo, apresentei dados, mas minha posição foi vencida. Dane-se o bem-estar do povo, os homens de preto têm prioridade.

Voltando para casa, passei por uns repórteres, alguns gravando para os programas onde trabalhavam. Ah, esses repórteres! Papagaios. Salvo um ou outro, a maioria só sabia repetir. Repetiam as falas dos meus colegas, repetiam os press-releases, repetiam o modus operandi técnico de seus próprios colegas. Letárgicos, imóveis, falavam ou escreviam de forma emburrada sobre as movimentações partidárias fisiológicas, como autômatos, sem pensar no que faziam. Vez ou outra eu cheguei para alguns jornalistas de minha confiança para vazar dados que abalariam a República. Na maioria das vezes eles ficavam empolgados, sabiam que poderiam contar uma boa história. Mas nunca vi o processo chegar ao fim: estancava em algum lugar, sabe-se lá onde. Sei que muitos deles eram sonhadores como eu, queriam fazer um bom trabalho, mas acabavam impedidos pelas circunstâncias. No fim, fora exceções, acabavam frustrados ou resignados, afinal, tinham o salário de merda deles.

Renunciei depois de 20 meses de mandato, estava quase me corrompendo. Ninguém entendeu, nem meus amigos jornalistas.

O que ficou de lição para mim é que A DEMOCRACIA REPRESENTATIVA É UMA FARSA. Nunca mais me meto com política.

II. Religião

Em certo ponto de minha vida, fiz um curso para virar pastor. Por favor, não jogue pedras na minha pessoa. Eu realmente acreditava que estava fazendo uma coisa boa pelo mundo. Apesar de nunca ter visto Deus, nunca ter entrevistado Jesus, eu realmente passei a achar isso tudo muito legal depois que um homem de modos polidos e fala encantadora conversou comigo. Eu realmente queria ajudar, passei a entender o mundo como uma enorme fazenda de ovelhas, e essa fazenda sempre precisava de muitos pastores para controlar, tratar e vacinar o rebanho.

Tempos depois, quando conheci uma ovelha, notei que a analogia com os ovinos – que ouvi pela primeira vez do homem de fala agradável – fazia muito sentido. São animais dóceis e doces, “como os seres humanos, sempre prontos a seguir alguém que esteja preparado para a liderança”. Os que não eram dóceis e doces deveriam ficar assim, pois era essa a vontade de Deus. A vontade de que ninguém discorde, ninguém tenha lã negra, que se siga o líder, o líder sempre sabe. A ovelha que inventar uma forma de pular o cercado deve virar churrasco. Afinal, sabe lá quais são os  perigos que a parte de fora do cercado oferece aos pobres animais – o pastor deve sempre zelar por seus ovinos – ele SEMPRE sabe o que é melhor para eles, mesmo que seja contra suas vontades e aspirações. Antes virar churrasco que correr riscos terríveis e, o pior de tudo, dar exemplo.

Não concluí o curso. Achei ilógico estimular os fiéis a depositar dinheiro, se possível fazer os mesmos doarem para a igreja bens duráveis como automóveis, e ao mesmo tempo dizer para as ovelhinhas que isto servia para melhorar sua própria saúde financeira. O professor disse que “Deus escreve certo por linhas tortas e a lógica d’Ele é incompreensível para nós”. Perguntei se existiam evidências empíricas dessas linhas tortas – EU SEI QUE É UMA METÁFORA – e fui expulso da aula por subversão e desacato. Depois disso, passei a viver bem sem religião. Vendi o carro que tinha e dei entrada numa casa própria com o dinheiro. Se você ganhou uma casa de Deus depois de ter doado um bem de grande valor econômico, mande um e-mail para mim.

Alguns ex-colegas me perguntaram posteriormente se eu não tinha medo do inferno. Disse que vivia muito bem sem o inferno, e eles ficaram impressionados como eu conseguia ser um cara gentil, polido e sobretudo honesto sem acreditar na punição divina. Também não entenderam como eu superava meus momentos de tristeza sozinho. Rebati que RELIGIÃO É FREIO E MULETA.

Chega por hoje. Continuo contando fatos relevantes da minha vida n’outro dia, senão serei tragado pelo meu senso de humor.

Literatura de baixo nível

Segunda-feira, 2 Fevereiro, 2009 por Arthur

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A imagem do século 16

Domingo, 1 Fevereiro, 2009 por Arthur

Impossível escolher uma só. Foi um século exuberante.

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, obra máxima do Renascimento italiano

Trecho das 95 teses de Martinho Lutero

Trecho das 95 teses de Martinho Lutero, que iniciou a Reforma Protestante

O Estreito de Magalhães foi descoberto na primeira viagem de volta ao mundo

O Estreito de Magalhães foi descoberto na primeira viagem de volta ao mundo

Batalha de Cajamarca, onde menos de 200 espanhóis derrotaram 7000 indios e capturaram o Inca

Batalha de Cajamarca, onde menos de 200 espanhóis derrotaram 7000 índios e capturaram o Inca

William Shakespeare

William Shakespeare

A imagem do século 17

Quinta-feira, 8 Janeiro, 2009 por Arthur
Telescópio de Hevelius

Astrônomo usando telescópio

Foi um século fantástico para a ciência. Grande foi o desenvolvimento na Matemática (Pascal, Leibniz, Descartes), na Física (Newton), na Astronomia (Galileu, Kepler, Huygens) e na Biologia (descoberta das células), tanto através dos cientistas citados quanto por outros não mui lembrados.

Parte desses avanços só foi possível depois de uma maior compreensão do funcionamento das lentes, que possibilitou aparelhos como o microscópio e o telescópio da imagem. A partir de um telescópio, Galileu descobriu as luas de Júpiter, fato que ajudou a enterrar o geocentrismo, ideia de que todo o Universo se movia em torno da Terra. Foi uma mudança de paradigma tão importante quanto a causada pelas fotos da “bolinha azul” no século 20, embora não tenha sido um choque para o ser humano comum: a Igreja era partidária do geocentrismo e ainda muito forte na época. Isto levou Galileu a renegar o que falou, embora a lenda diga que, após afirmar que a Terra é o centro do Universo, sussurou “no entanto, move-se”.

Issac Newton elaborou suas três leis, explicando como funciona o movimento no planeta. Além, claro, de ter explicado definitivamente porque as coisas costumam cair em direção ao chão. Seus trabalhos não ficaram restritos à mecânica, e descreveram também características da luz, por exemplo. Além da vida como cientista, Newton também investia na Bolsa de Valores, uma idéia recente, que, apesar de alguns contratempos, acabou tendo grande aceitação mundo afora pelos ganhos que gera…

Outros fatos que gerariam imagens para este post são, com destaque, a Guerra dos Trinta Anos e a Guerra Civil Inglesa. A primeira foi o último grande conflito religioso da Europa, e uma de suas consequências foi o estabelecimento do estado-nação como conhecemos hoje. A segunda lançou as bases para a Revolução Gloriosa: formou-se a primeira monarquia constitucional. No entanto, os avanços da ciência, embora tenham ocorrido na Europa, são mais universais que os fatos políticos do continente nos anos 1600. Basta olhar em torno e para dentro de si para perceber.

A imagem do século 18

Terça-feira, 6 Janeiro, 2009 por Arthur

“Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade”.

Declaração de Independência dos Estados Unidos - fac simile de 1823

Declaração de Independência dos Estados Unidos - fac símile de 1823

É a primeira imagem da série que não mostra uma imagem produzida no século em questão, é uma reprodução de um documento da época. No entanto, de qualquer forma, ela representa algo do século 18. A declaração pode ser lida ao se clicar na imagem para amplicação.

Provavelmente, a assinatura desse documento é o momento que mais influenciou os 200 anos seguintes, e também um dos poucos em que se reuniu uma grande quantidade de gênios. Numa passagem do filme As Invasões Bárbaras, são citados três momentos da História em que se reuniu um número considerável de pessoas notáveis: na Grécia Antiga, no Renascimento italiano e na época dos “Founding Fathers”, os pais da nação norteamericana. Os mais importentes são Alexander Hamilton, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e George Washington. Os dois últimos foram presidentes. Franklin também dedicou-se também à ciência, fazendo pesquisas sobre eletricidade. Hamilton foi secretário do Tesouro.

Eu poderia colocar alguma imagem da Revolução Francesa no lugar. A decapitação de Luís XVI é um momento bem interessante, mais cru e de simbologia até mais forte que seu correspondente do novo Mundo. Mas a independência e a posterior Constituição das então Treze Colônias é um marco maior, que inclusive acabou até influenciando e motivando os franceses. Talvez a maior ênfase pelo que aconteceu no outro lado do Atlântico seja um pouco de eurocentrismo da historiografia…

O documento em questão é interessante porque moldou o mundo que veio depois. Os Estados Unidos foram a primeira república/democracia nos moldes atuais. Na época, já existiam algumas repúblicas na Europa, mas eram Estados pequenos, de pouco peso político e que ainda tinham muitas características das repúblicas da Antiguidade. Tanto a Declaração de Independência quanto a Carta Magna do gigante do norte (principalmente a primeira) foram as sínteses práticas imediatas das idéias iluministas de que os homens nascem iguais (embora a escravidão ainda continuasse a existir naquelas bandas por cerca de 80 anos) e que a liberdade de expressão é um direito importante. Numa época em que os reis se consideravam legitimados pela vontade de Deus para governar, foi um salto gigantesco como pisar na Lua.

A imagem do século 19

Sexta-Feira, 2 Janeiro, 2009 por Arthur

Continuando a série iniciada ontem.

Ao meu ver, a imagem do século XIX é essa charge publicada na revista Hornet em 1871, retratando Charles Darwin como um macaco. Eu poderia colocar apenas uma foto do naturalista, mas essa imagem é muito mais abrangente.

Simios...

Símios...

Mas por que Charles Darwin? A razão é quase óbvia: assim como a corrida espacial, o trabalho dele ajudou a colocar a humanidade no seu devido lugar no universo. Não somos criaturas especiais, somos apenas as mais adaptadas ao ambiente. Nós compartilhamos um antepassado comum com meros macacos. Eu poderia ter colocado uma lâmpada elétrica ou um retrato de Napoleão ou Marx, que também são filhos interessantes do século retrasado. Mas o impacto dos estudos de Darwin foi mais forte na psique humana que qualquer invenção ou evento político dos anos 1800.

Parte dos seres humanos, cegos por convicções sem base empírica, ainda hoje insistem em refutar a idéia da seleção natural. A charge acima reflete o choque que foi para a parte mais conservadora da sociedade oiticentista a idéia de que somos parentes de símios “bestializados”. O que nos diferencia dos outros animais, que propiciou que construíssemos civilizações, foi resultado de uma série de eventos somados à sorte de ser a espécie certa, na hora certa e no lugar certo.

Antes de Darwin, éramos criaturas especiais, criadas pelo toque de Deus a sua imagem e semelhança (na cultura ocidental). O inglês barbudo mudou a forma como o ser humano se enxerga.

A imagem do século 20

Quinta-feira, 1 Janeiro, 2009 por Arthur

Aqui começa uma série, que só vai ser entendida (inclusive por mim) durante seu desenvolvimento.

Difícil escolher:

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A terra vista por astronautas

ou:

A primeira explosão nuclear

A primeira explosão nuclear

Rumo a 2009

Sexta-Feira, 19 Dezembro, 2008 por Arthur

Estive sem condições de postar nas últimas semanas. Minha vida ficou de cabeça pra baixo e não estou com um computador em casa.

Por isso resolvo dar este sinal de vida aos (poucos) que lêem isto aqui.

Tenho alguns projetos para o próximo ano, e um deles é dar mais atenção para este blog. Nada mui revolucionário, não esperem um novo Google ou uma nova Wikipédia. Mas tentarei ser mais, hum…periodista.

O Vingador Engravatado

Sábado, 1 Novembro, 2008 por Arthur

Jürgen da Silva estava abotoando o paletó quando lembrou: esquecera a gravata. Desabotoando a já citada peça de roupa, nosso novo amigo afro-germânico pegou uma gravata preta, que ele julgava combinar com o resto do vestuário. Feito um nó do tipo windsor, estaria ele pronto para a noite que aí viria. Os filhos tinham ficado com a avó – a avó de Jürgen, não dos filhos dele – o que permitira ao nosso amigo de origens européias e raízes africanas viver uma noite romântica absolutamente pós-moderna. O programa era um jantar num restaurante japonês com sua nova namorada, Jalila, barenita que fugiu do país num veleiro e fora resgatada semimorta por fuzileiros navais estadunidenses no golfo (mas esse detalhe é irrelevante para o causo). Jürgen e Jalila, o casal afro-árabe-germânico, desfrutaria das delícias da culinária nipônica ao som de um conjunto de salsa, num local onde os vegetais servidos haviam sido cultivados numa fazenda hidropônica da Groenlândia. Enfim, tudo vale.

Ele deliciou-se pensando nisso tudo enquanto fazia o nó windsor. Depois de todas essas divagações, olhou-se no espelho e…Não, não estava gordo. Era um macho alfa pronto para agir, impedido de fecundar o maior número possível de fêmeas apenas pela cultura onde se inseria, que acabou por controlar seus instintos mais primitivos – assim como aconteceu com Bob Jeff. Continuando, Jürgen observou seu reflexo no espelho e percebeu que parecia um segurança de boate com aquela roupa. Talvez porque ele realmente trabalhasse no ramo. No entanto, ele queria uma aparência mais atrativa para agradar sua namorada, algo cool, algo descolado, algo hype, algo mais…mais…Faltou a palavra…Gay? Não, mulheres costumam gostar de gays, mas não seria exatamente esse o ponto. Bem, a questã é que nosso amigo não queria ir para o encontro com a farda do trabalho, e tratou de trocar a gravata.

Pano de amarrar pescoço de cor preta não podia. Assim, Jürgen retirou do roupeiro uma gravata de cor preta. Er…Algo errado. Colocou as duas pretas que tinha em mãos de volta e retirou uma terceira, de cor preta. Então, nosso desolado amigo escancarou a porta do armário e percebeu que sua coleção de gravatas, um total de meia-dúzia, continha apenas peças tão escuras quanto carvão. Desesperado, Jürgen cogitou mudar completamente o figurino, mas não tinha idéia do que vestir. No fim, para não se atrasar, e pensando que “ficar nesse troço de escolher roupa é coisa de mulher”, nosso amigo, praticamente um irmão depois de tanta intimidade nossa com suas gravatas, vestiu sua indumentária de segurança e foi para o Ryu’s.

Deu a partida no seu carro, um Corolla de cor preta, dobrou na terceira esquina à esquerda, seguiu numa avenida até pegar o terceiro viaduto à direita. Dobrou na primeira à esquerda e na segunda à direita. Não sei em que cidade ele estava, mas não é difícil imaginar. Deixou as chaves com o manobrista e CHUMPÁ! entou no restaurante.

O recinto era um local arejado, espaçoso e rarefeito de pessoas. As mesas eram bem isoladas umas das outras, o que tornava o local atrativo para casais românticos que gostam de desfrutar momentos íntimos num local aberto ao público. Jürgen sentou-se na mesa reservada para o casal que ele integrava e dispensou o garçom. Esperaria Jalila chegar para pedir alguma coisa, e preferencialmente compartilhariam o desejo. Enquanto isso observava as outras mesas. De longe, claro, já que o Ryu’s era um local rarefeito. Naquele momento, além dele, estavam no restaurante nove casais felizes e uma família indefinida. A noite de então era marcada pelo quinto encontro entre Jürgen e Jalila desde o início do namoro. Ambos estavam apaixonadíssimos e nosso amigo-quase-irmão anotava todas as estatísticas do relacionamento numa planilha. Matei um mosquito.

Cinco minutos haviam passado na primeira vez que Jürgen olhou para o relógio. A segunda foi dois minutos e trinta e três segundos depois. A perna esquerda começou a balançar. Após um minuto e quarenta centésimos (centésimos, não segundos) as duas estavam balançando freneticamente. O primeiro pingo de suor na testa apareceu quando Jürgen já contava dez minutos ali sentado e Ali Babá. Jalila custava a aparecer, mas ele relutava em parecer um mala incomodando a moça pelo celular. Os nove casais felizes em volta, rarefeitos, mas em volta, o deixavam cada vez mais apreensivo. Ele queria dar um fim naquela situação incontrolável, mas era incontrolável justamente por depender de Jalila simplesmente aparecer.

Jürgen pensou que algo para tomar o deixaria um pouco mais calmo. Sempre quis provar saquê. Estava num restaurante japonês e sempre quis tomar saquê. “Garçom, me vê um saquê”. “Desculpe senhor, não temos saquê”. “Então me vê uma cerveja”. “Heineken ou Kaiser?”, perguntou o jovem e prestativo garçom. “Kaiser”.

Tomou um copo num gole só, e repetiu a dose. Finalizou a garrafa, e nada de Jalila estampar seus belos olhos negros no restaurante. Vinte e cinco minutos passados. Nada. Meia hora. Jürgen desesperou-se e ligou para Jalila. O celular da namorada chamou até cair na caixa de mensagens. O horror estava estampado na face de Jürgen, que sentia o coração subir pela garganta ao olhar para aqueles malditos nove casais felizes que insistiam em ficar no seu campo de visão. O órgão que bate-bate só não saltou pela garganta do coitado porque entalou na laringe, ocasionando uma ida ao banheiro para desafogamento do local.

Cinqüenta minutos corridos e três ligações para o celular da barenita. Nada. Jürgen levantou-se, ajeitou a roupa, mandou uma banana para os sete casais felizes que restavam e foi pagar a Kaiser. Entrou em seu Corolla e desandou a chorar. Como isto havia acontecido? Eles estavam tão apaixonados! Chegaram até a trocar cartinhas de amor no terceiro encontro, a dele com 2190 caracteres. Assim que parou de chorar, um plano vingativo tomou conta de todo o ser e do não-ser de nosso amigo afro-germânico.

Ele trairia Jalila IMEDIATAMENTE. Como? Ah, como…Retornar ao restaurante e galantear uma mulher estava fora de questã, todas estavam comprometidas, inclusive a da família indefinida. A saída foi ligar para o 102.

“Auxílio à lista, boa noite”.

“Quero o número de um tele-puta”.

“tututututu…”

Ok. Jürgen logo reconheceu que foi uma besteira. Perguntaria para um taxista. No ponto mais próximo, só havia um velhinho simpático. O senhor aparentava ter uns 80 anos e vitalidade de 70. Era um daqueles velhinhos de sorriso contagiante e sincero, que deixam teu dia melhor apenas te cumprimentando. Nosso amigo não teve coragem de pedir o que queria para ele. Cogitou brevemente perguntar o endereço de alguma dessas casas de massagens eróticas, mas, além de faltar coragem para encarar o velhinho de sorriso contagiante, ele pensou que podia encontrar algum conhecido tipo…Sei lá, o pai dele. Queria uma forma de trair a namorada com alguma privacidade.

“O senhor se importa de me dar o jornal de hoje? O dia já acabou mesmo e eu preciso urgentemente ver os classificados de imóveis”. Golpe de mestre! não haveria porque o taxista recusar. Jürgen pegou o impresso e partiu. Duas quadras depois, percebeu que o velhinho deu apenas a seção de imóveis dos classificados. Parando no próximo ponto de táxi, nosso amigo inventou que colecionava jornais, por mais bizarro que isso possa parecer nos dias de hoje. Teve mais sorte.

“Privacidade total. Garotas de alto nível. Visite nosso site”. Ele não tinha como visitar o site naquele momento, mas ligou para o número indicado no anúncio. Parecia realmente ser bom. “Hum, os valores são acima de 200 reais”…”Hum, gosto de loiras com marcas de biquíni e bunda grande”…”Hum, tem disponível assim”…”Pode ser olhos azuis”…”Só atende em hotéis e motéis”…”Sem problema”…”Busco de carro, onde é o ponto?”…”Certo, em meia hora”…”Estou num Corolla preto, placa YYZ 666″.

Foi empolgadíssimo ao local combinado. A sujeita fora capa de uma revista masculina recentemente, ele a conhecia por fotos. Estacionou e ficou a observar o movimento local. Logo percebeu que era uma zona de baixo meretrício. Mulheres que vendiam o corpo a preços acessíveis, travestis, até homens faziam ponto nas calçadas. Jügen observou que todo tipo de ser humano perambulava pelo local. Desde ricaços em carros blindados até homens de aparência extremamente humilde. Gente idosa, grupos de rapazes saindo da adolescência e até um padre.

Cinco minutos. Um travesti foi abordado em seu ponto e entrou num fusca marrom. Dezesseis minutos. Três carros faziam fila para falar com uma morena mignon que usava um short extremamente curto, revelando pernas exaustivamente trabalhadas numa academia. Vinte e sete minutos, um grito de êxtase preencheu a avenida, vindo de algum quartinho localizado n’algum cortiço que servia de motel improvisado. Quarenta minutos. Em vez de outro grito, tiros. Calibre 40.

Jürgen não podia sair para circular, sob o risco de perder o programa caso a moleca chegasse imediatamente e ele demorasse muito a voltar por algum motivo qualquer. Ele sempre quis fazer sexo com uma mulher capa de revista…

O celular da moça ora chamava, ora estava desligado. Mistério total.

“QUIETO! NÃO TE MEXE!”

“Hein?”

“Parado”.

Ele parou.

“Agora tu sai rapidinho desse carrinho”.

Era o que faltava. Mas uma UZI intimida o segurança de boate mais valente.

Jürgen ficou à pé. Mesmo que a contratada chegasse, não havia meio de transporte, e já havia sido avisado que as moças da agência não usam os motéis improvisados daquela avenida. Nosso azarado amigo viu seu Corolla preto partir. Agoniado com a cena de seu carro indo embora, o ser afro-germânico que protagoniza esta trágica história olhou para outro lado. Deu de cara com um casal canino copulando. Tá, até aí tudo bem, mas eles lembravam os malditos nove casais felizes do restaurante! Que asco! O cão preso à cadela após o ato remetia a Jürgen um resumo de tudo que a natureza masculina representava para ele naquele momento.

Amanheceu. O nosso amigo ligou para os filhos, queria saber se tudo corria bem com eles. Sua avó disse que Lothar e Franz dormiam como bebês. De fato, eram gêmeos de onze meses, a mãe morrera no parto. Faria um BO após tomar banho. Caminhante matutino, Jürgen da Silva retornou à pé para sua morada. A três ruas da sua, deu de cara com seu Corolla. O idiota do ladrão, sem munição, não percebeu que havia uma blitz no local, até porque a mesma foi estrategicamente posicionada numa curva. O teste do bafômetro pegou o meliante. Lei seca e roubo. O carro foi recuperado.

Jalila nunca mais foi vista por Jürgen da Silva.

Conserta-se guarda-chuvas

Quinta-feira, 16 Outubro, 2008 por Arthur
O conserto sai de R$ 2 a R$ 2,50

O reparo custa entre R$ 2 e R$ 2,50

Talvez eu já tenha passado por algo do tipo, mas hoje isto me chamou a atenção. Trata-se de uma família que conserta guarda-chuvas. Instalados na Rua Cel. Pedro Benedet, no centro de Criciúma, eles parecem ter um público considerável nos dias de chuva, como hoje. A atividade parece ser lucrativa, como me contou David, um dos integrantes, enquanto arrumava a sombrinha da senhora de compridos cabelos loiros da foto. Perguntei se rendia grana suficiente para encher a barriga, ao que ele respondeu positivamente.

Claro, eles só aparecem por lá quando chove, já que um belo dia ensolarado não costuma ter muitas pessoas carregando guarda-chuvas (sua clientela). “Nos dias de sol a gente passa de porta em porta nas vilas”, me falou o David. Diz ele que são os únicos do ramo em toda a região.

A criatividade do ser humano, quando favorecida pelas circunstâncias, é impressionante, a ponto de bolar uma fonte de renda como essa. E mais impressionante ainda é existir mercado para isso, já que eles cobram para arrumar um produto tão barato.