Olá, meu nome é Idi Amin Dada e sou um personagem ficcional. Minha relação com o falecido ditador de Uganda é nula, exceto pelo fato de que meus ficcionais pais o adoravam. Conto aqui traços de minha conturbada história que eu considero relevantes, o que não significa que você necessariamente concorde com minha opinião. Apesar do meu nome, sou fã de tipos como os iluministas e não ficarei fulo, triste, bravo ou com vontade de matar ALGUÉM por conta de uma mera discordância cretina.
Minhas revelações se darão da forma que eu achar melhor, já aviso que estou pouco me lixando para critérios como ordem cronológica, isenção, objetividade, imparcialidade e outras ilusões que inventaram para vender jornal. O primeiro tópico dá uma ideia do meu senso de humor, o que pode poupar seu tempo caso você não goste do que tenho a falar.
I. Política
Sempre tive vontade de mudar o mundo, seja acabando com a fome dos oprimidos, matando o papa ou simplesmente alterando a disposição dos objetos no meu quarto. Em determinada idade, surgiu a oportunidade de me candidatar a um cargo público com grandes chances de ganhar. As circunstâncias disso são irrelevantes, o que interessa é o posterior.
Chegando na casa legislativa, totalmente pilhado com a possibilidade de mudar a ordem das coisas e o status quo, deparei-me com o primeiro obstáculo. Não entendia porra nenhuma de legislação. Mal tinha ideia das leis que deveria mudar e muito menos como proceder para escrever um texto elaborado de forma a não criar vácuos para advogados nem duplo sentido. Sim, eu era assessorado, mas foi constrangedor quando me questionaram sobre a reprodução de conteúdo em mídias digitais e não soube responder. Depois do mico em praça pública – ó, o nobre e excelentíssimo deputado é um filho da puta que não sabe o que está fazendo ali – questionei meus assessores sobre o tema. Eles disseram que estudariam o assunto, pois internet era algo que inexistia no tempo de suas vidas acadêmicas e eles já tinham seus carguinhos mamadores quando o lance que me constrangeu estourou no mundo.
Tomado por boa vontade, pesquisei o assunto a tempo de entende-lo corretamente antes de uma votação. Mas logo percebi que era um alienígena: nenhum dos meus colegas sabia porra nenhuma sobre o que se discutia no plenário. Nos bastidores, só se falava em acertos para o partido votar sim ou não, possibilidade de distribuição de verbas e cargos de acordo com o interesse do Executivo, coisa e tal. Eis que apareceram homens de ternos pretos e mui bem cortados, com malas igualmente pretas e bem cortadas, nenhuma delas com rodinhas. Papearam muito, muito mesmo, com os líderes das bancadas. A maioria acatou os argumentos dos homens de preto e orientou os correligionários a votar de acordo com sua orientação. Tentei argumentar, fui na tribuna, expus os argumentos mais lógicos do mundo, apresentei dados, mas minha posição foi vencida. Dane-se o bem-estar do povo, os homens de preto têm prioridade.
Voltando para casa, passei por uns repórteres, alguns gravando para os programas onde trabalhavam. Ah, esses repórteres! Papagaios. Salvo um ou outro, a maioria só sabia repetir. Repetiam as falas dos meus colegas, repetiam os press-releases, repetiam o modus operandi técnico de seus próprios colegas. Letárgicos, imóveis, falavam ou escreviam de forma emburrada sobre as movimentações partidárias fisiológicas, como autômatos, sem pensar no que faziam. Vez ou outra eu cheguei para alguns jornalistas de minha confiança para vazar dados que abalariam a República. Na maioria das vezes eles ficavam empolgados, sabiam que poderiam contar uma boa história. Mas nunca vi o processo chegar ao fim: estancava em algum lugar, sabe-se lá onde. Sei que muitos deles eram sonhadores como eu, queriam fazer um bom trabalho, mas acabavam impedidos pelas circunstâncias. No fim, fora exceções, acabavam frustrados ou resignados, afinal, tinham o salário de merda deles.
Renunciei depois de 20 meses de mandato, estava quase me corrompendo. Ninguém entendeu, nem meus amigos jornalistas.
O que ficou de lição para mim é que A DEMOCRACIA REPRESENTATIVA É UMA FARSA. Nunca mais me meto com política.
II. Religião
Em certo ponto de minha vida, fiz um curso para virar pastor. Por favor, não jogue pedras na minha pessoa. Eu realmente acreditava que estava fazendo uma coisa boa pelo mundo. Apesar de nunca ter visto Deus, nunca ter entrevistado Jesus, eu realmente passei a achar isso tudo muito legal depois que um homem de modos polidos e fala encantadora conversou comigo. Eu realmente queria ajudar, passei a entender o mundo como uma enorme fazenda de ovelhas, e essa fazenda sempre precisava de muitos pastores para controlar, tratar e vacinar o rebanho.
Tempos depois, quando conheci uma ovelha, notei que a analogia com os ovinos – que ouvi pela primeira vez do homem de fala agradável – fazia muito sentido. São animais dóceis e doces, “como os seres humanos, sempre prontos a seguir alguém que esteja preparado para a liderança”. Os que não eram dóceis e doces deveriam ficar assim, pois era essa a vontade de Deus. A vontade de que ninguém discorde, ninguém tenha lã negra, que se siga o líder, o líder sempre sabe. A ovelha que inventar uma forma de pular o cercado deve virar churrasco. Afinal, sabe lá quais são os perigos que a parte de fora do cercado oferece aos pobres animais – o pastor deve sempre zelar por seus ovinos – ele SEMPRE sabe o que é melhor para eles, mesmo que seja contra suas vontades e aspirações. Antes virar churrasco que correr riscos terríveis e, o pior de tudo, dar exemplo.
Não concluí o curso. Achei ilógico estimular os fiéis a depositar dinheiro, se possível fazer os mesmos doarem para a igreja bens duráveis como automóveis, e ao mesmo tempo dizer para as ovelhinhas que isto servia para melhorar sua própria saúde financeira. O professor disse que “Deus escreve certo por linhas tortas e a lógica d’Ele é incompreensível para nós”. Perguntei se existiam evidências empíricas dessas linhas tortas – EU SEI QUE É UMA METÁFORA – e fui expulso da aula por subversão e desacato. Depois disso, passei a viver bem sem religião. Vendi o carro que tinha e dei entrada numa casa própria com o dinheiro. Se você ganhou uma casa de Deus depois de ter doado um bem de grande valor econômico, mande um e-mail para mim.
Alguns ex-colegas me perguntaram posteriormente se eu não tinha medo do inferno. Disse que vivia muito bem sem o inferno, e eles ficaram impressionados como eu conseguia ser um cara gentil, polido e sobretudo honesto sem acreditar na punição divina. Também não entenderam como eu superava meus momentos de tristeza sozinho. Rebati que RELIGIÃO É FREIO E MULETA.
Chega por hoje. Continuo contando fatos relevantes da minha vida n’outro dia, senão serei tragado pelo meu senso de humor.









